Entre Dobras

Não me faça pensar. Me mostre a fábrica

Nove filtros ou um olhar?

Ítalo Castro4 min de leitura
Imagem de abertura do artigo “Não me faça pensar. Me mostre a fábrica”

Um dos livros que mudou minha forma de enxergar interfaces foi Não Me Faça Pensar, do Steve Krug a ideia parece simples depois que você lê:

Uma boa interface não deveria obrigar o usuário a parar e descobrir como ela funciona.

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Desde então, comecei a prestar mais atenção no esforço mental que alguns sistemas transferem para as pessoas, as vezes, a interface é bonita a tela parece limpa os botões estão organizados mesmo assim, o usuário precisa pensar demais para encontrar uma informação que deveria ser óbvia.

Foi exatamente o que aconteceu em um projeto recente a informação estava lá estávamos trabalhando em um sistema de gestão de pedidos para um cliente industrial, todos os dados necessários já existiam cada pedido tinha sua etapa atual, prazo, status e pessoas autorizadas a acompanhá-lo.

Mas, para descobrir onde estava o gargalo da operação, alguém precisava acessar uma lista e combinar filtros diferentes ou parar e olhar gráficos e dashboards.

O usuário conhecia a operação o sistema conhecia os dados ainda assim, encontrar o problema exigia vários minutos de trabalho, a primeira reação seria melhorar os filtros talvez criar mais um relatório ou montar outro dashboard.

Mas a pergunta que mudou o projeto foi outra:

Por que estamos representando uma fábrica como uma tabela?

O cérebro entende a fila em uma fábrica física, ninguém precisa abrir nove filtros para perceber que existe um gargalo você olha para uma etapa e vê caixas acumuladas.

Enxerga imediatamente onde a operação está parada, quais pedidos estão atrasados e onde a fila começa a crescer nosso cérebro reconhece esse tipo de padrão em segundos então criamos uma representação 3D da operação.

Cada caixa representa um pedido a posição mostra em qual etapa ele está.

Vermelho significa prazo estourado.

Amarelo indica risco.

Verde mostra que está em dia.

Se várias caixas começam a se acumular em um ponto, o gargalo aparece sem que ninguém precise procura ao clicar em uma etapa, o usuário vê a fila organizada por urgência ao clicar em uma caixa, abre o pedido correspondente.

As regras de acesso continuam no servidor. Cada pessoa enxerga apenas as etapas e informações que possui permissão para visualizar a interface mudou a segurança e as regras de negócio continuaram sendo tratadas como engenharia.

A parte mais importante não é o 3D a visualização chama atenção.

É a parte que fica bonita no vídeo e faz as pessoas perguntarem como foi construída.

Mas o principal aprendizado não está no 3D conseguimos implementar apenas a camada visual porque os dados já estavam bem modelados.

Pedidos, etapas, prazos, estados e permissões possuíam representação dentro do sistema a fábrica 3D não criou a operação ela apenas tornou visível aquilo que o sistema já sabia.

Toda a geometria foi gerada pelo próprio código com usando os dados que já existiam não compramos um modelo 3D pronto.

Algo que antes poderia exigir uma equipe especializada e meses de trabalho passou a ser viável em poucos dias mas isso só aconteceu porque a base estava pronta.

A imagem impressiona. O modelo de dados é o que tornou a imagem possível limpo não significa simples.

Depois de ler Não Me Faça Pensar, passei a desconfiar de interfaces que parecem simples apenas porque possuem poucos elementos uma tabela com dois botões e nove filtros pode ser visualmente limpa mas é cognitivamente cara.

Ela exige que o usuário transforme linhas, colunas e estados em uma imagem mental da operação interface economiza esforço do sistema transferindo trabalho para o cérebro da pessoa.

No nosso caso, o software possuía todos os dados necessários para construir essa imagem. então não fazia sentido obrigar o usuário a reconstruí-la sozinho.

A interface deixou de ser o gargalo quando começou a representar o negócio da forma como as pessoas realmente o enxergavam ás vezes, culpamos o usuário por não saber utilizar um sistema criamos treinamento, manual, tutorial e mais um campo de busca.

Mas talvez ele entenda perfeitamente a operação software é que escolheu uma forma ruim de mostrá-la.

Foi isso que mais gostei nesse projeto não adicionamos apenas uma funcionalidade.

Mudamos a forma como a pessoa percebe o próprio trabalho.

Na Origami Lab, é esse tipo de problema que gostamos de resolver: entender a operação, modelar o negócio e construir um software que ajude as pessoas a enxergar o que antes estava escondido nos dados.

Se a sua equipe precisa combinar nove filtros e três planilhas para entender o que está acontecendo, talvez o problema não seja falta de informação.

Talvez a interface esteja exigindo pensamento demais para mostrar algo que deveria ser óbvio.

Veja funcionando, publiquei um vídeo mostrando a operação 3D e alguns detalhes técnicos da implementação:

https://www.linkedin.com/feed/update/urn:li:activity:7513322455755546625/

Vale assistir porque a diferença entre explicar a ideia e enxergar as caixas se acumulando é justamente o ponto desta newsletter.

E essa foi mais uma dobra de: construir interfaces que o cérebro entende antes de precisar do manual.

Nos vemos na próxima quinta, às 10:10.

Conteúdo do artigo

Referência

Não Me Faça Pensar, de Steve Krug.

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