Entre Dobras

Quando o leite azedar

Eu tinha uma mania durante os one-on-ones com pessoas do time: dizer para que não me enxergassem apenas como líder.

Ítalo Castro3 min de leitura
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Eu tinha uma mania durante os one-on-ones com pessoas do time: dizer para que não me enxergassem apenas como líder.

“Sou mais um no jogo. Faço parte do time.”

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Havia algo verdadeiro nessa frase. Eu não queria criar uma distância artificial entre mim e as outras pessoas. Não queria ser o sujeito que observa o trabalho de cima, distribui ordens e usa o cargo para marcar sua posição.

Até que, durante um desses one-on-ones, um liderado me corrigiu.

“Não. Você é o líder, sim. Você é o nosso líder. Porque, quando o leite azedar, quem vai estar na frente será você, não eu.”

Ele tinha razão.

A palavra liderança carrega um peso estranho. Às vezes, ela aparece como uma responsabilidade. Em outras, como um título que a pessoa exibe.

“Eu lidero tal área.”

“Tenho tantas pessoas no meu time.”

O número de pessoas passa a funcionar como medida de importância. Como se uma estrutura maior tornasse alguém automaticamente mais relevante.

Talvez minha resistência viesse daí. Eu não queria me enxergar acima de ninguém.

Mas a fala daquele liderado expôs um erro no meu raciocínio: fazer parte do time não significa ocupar exatamente o mesmo papel.

Podemos jogar juntos. Podemos construir juntos. Podemos discordar, dividir decisões e aprender uns com os outros. Isso não muda o fato de que, em certos momentos, a responsabilidade não será distribuída igualmente.

Quando o leite azedar, alguém precisará estar na frente.

É nesse momento que a liderança deixa de ser uma palavra bonita no organograma.

Quando tudo funciona, é fácil dizer que somos todos parte do mesmo time. A diferença aparece quando uma decisão dá errado, quando o resultado não chega ou quando é necessário sustentar uma escolha difícil.

Nesses momentos, dizer “sou apenas mais um” pode deixar de ser humildade.

Pode virar uma forma confortável de evitar a responsabilidade.

Isso não significa que o líder precisa ter todas as respostas. Também não significa decidir sozinho ou transformar autoridade em controle.

Significa reconhecer que existe uma responsabilidade que acompanha o papel, inclusive quando ela é desconfortável.

Mas assumir a frente quando as coisas dão errado é apenas uma parte do trabalho.

A outra, menos visível, acontece antes.

Liderar também é saber colocar as pessoas nas posições certas. É criar um ambiente em que elas consigam trabalhar bem e, se possível, felizes com o que estão fazendo.

Nem sempre um problema de desempenho é um problema de capacidade.

Às vezes, uma pessoa competente está no lugar errado, diante do desafio errado ou sem o contexto necessário para entregar o que sabe.

O trabalho de liderança não é acumular pessoas abaixo de um cargo.

É criar as condições para que elas façam um bom trabalho.

Essa talvez seja uma medida mais honesta de liderança: não quantas pessoas respondem a você, mas quantas conseguem trabalhar melhor porque você está naquela posição.

Continuo acreditando que um líder faz parte do jogo.

Ele não precisa se colocar acima do time, construir uma distância desnecessária ou transformar o cargo em identidade. Pode trabalhar próximo, ouvir, compartilhar contexto e admitir que não sabe

Mas proximidade não elimina responsabilidade.

Estar no mesmo time não significa ocupar o mesmo papel.

Quando o leite azedar, alguém terá de ir para a frente.

E, se você aceitou liderar, essa pessoa é você.

E essa foi mais uma dobra de: liderança.

Nos vemos na próxima quinta, às 10:10.

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Publicado originalmente no Substack. Assine para receber os próximos ensaios.